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O esclarecimento 'obscuro' sob o signo da indústria cultural
escrito por Patrícia Valverde   
23 de julio de 2007

Este artículo se publicó originalmente en canal contemporaneo y fue cedido a arte y critica mediante el proyecto documenta 12 magazines.

Centros urbanos.
Ruídos, buzinas, luzes.
Transporte coletivo.

Paisagem caótica que a propriedade compactada, em logos e marcas, ocupa. As interferências no meio urbano poluem, mas seguem o entendimento lógico capitalista: o outdoor mostra um sapato gigante para vendê-lo; a placa do restaurante pisca para chamar clientela; há fila no comércio para que todos paguem na justa ordem de chegada etc.

Segundo expressão usada por Sloterdijk, esse quadro está organizado “na mente do sujeito urbano” para liberá-lo de questionar a fim de correr livremente o desenvolvimento político, econômico e social planejado. Sendo que o aspecto social trata do espaço de convivência da realidade física, geográfica e moral, portanto, atingida por todas as áreas dinâmicas co-existentes neste texto. Esses objetos de massa, que ocupam nosso espaço, são vendidos sob o cunho artístico por se tratar de uma produção humana. Isso incomoda?

As ferramentas para essa produção se adaptam de acordo com o objetivo de esclarecer idéia, intenção, indução ou entendimento sobre qualquer coisa. Um livro, por exemplo, carrega a cultura de esclarecimento mesmo que seu conteúdo corrompa o espírito original que procura ser entendido. Uma peça teatral carrega o compromisso de promover o entendimento sobre algum tema ou linguagem. A novela na TV é um veículo formado por artistas, que se escora na promoção do desenvolvimento cultural de sua audiência etc. Esses são alguns registros da história na qual participamos. Se voltarmos ao que conhecemos de História, como apenas a ficção do imenso potencial de realidade que se manteve sob a razão dos próprios sujeitos da ação narrativa e autobiográfica, pergunto agora, o que é que você está contando?1

O descentramento, fragmentação e instabilidade são respostas à formulação constante de uma “nova síntese desenvolvida livremente com o objetivo de compreender o [próprio] caos da modernidade”2. E a partir daí, temos imageticamente, zilhões de títulos poéticos boiando ao mar , como se fossem restos de uma tempestade mitológica sob a guerra dos homens e dos deuses, porém sem testemunhas. Para continuar, sugiro pensar que esses títulos boiando ao mar não estão afundados e sim, à deriva. Sem território, sem raízes, contemplando sua contemporaneidade. Sustento essa imagem porque me traz duas possibilidades: a) O estado de deriva que mapeia a banalidade/ obviedade do real e evidencia o que antes era invisível. b) E a falta de território e lugar firme no inconsciente coletivo representado pelas águas em alto mar.

Encontrar frestas que provoquem a desmecanização que tende a vida nas grandes cidades, procurar capacidades evolutivas do corpo como célula do corpo social, conhecer o espaço/tempo que a vida exerce através de registros sensíveis e de valorização individual e coletiva etc são as alternativas para o respiro da sensibilidade social e para o processo de formação do sujeito com engodo para intervir e participar na coletividade. A força motora dessas ações reside na subjetividade, sendo esta um requisito necessário na mente do sujeito urbano, incentivado pelas ferramentas midiáticas, para definir a verdade e o belo.

E nessa adoção da subjetividade pelos objetos e veículos de massa, está inserido “também” um discurso “pretensamente” esclarecedor através da produção artística. Disse também porque a subjetividade exercida com princípios éticos e através de uma necessidade vital completa o registro mais cúmplice e fidedigno de nossa História, mesmo que através dos objetos e veículos de massa. E frisei a palavra pretensamente porque contribui para seu oposto: um esclarecimento “obscuro”, cristalizando o que foi consumido pela massa como qualidade imperial. Cujo congelamento e satisfação do discurso sob a égide de alcançar a natureza dos sentidos aniquila uma qualidade orgânica e mutante.

O sujeito esclarecido [obscuramente], salta à esfera do entendimento pela confirmação midiática, tolhido da liberdade expressiva e movido pelo anseio de integração social. A arte que elabora a linguagem para esta sociedade midiática e obscuramente subjetiva depende de interlocutores, do próprio mercado em que a arte está inserida, para ser entendida. Por outro lado, as obras cujo consumo é perturbador, comunica ou toca em estruturas recônditas da sociedade, [tabus], na subjetividade inconsciente [coletivo] re-modelando diversas frentes de progresso. Ou seja, creio no uso indispensável do pensamento fundado na intuição [ao invés de crer em perspectivas globais] para o lado prático da vida. Essa intuição é alimentada pela comunicação e capacidade de ler e entender as obras de arte do tempo vigente e, portanto, não tem característica religiosa, ainda que considero um religar ontológico e transcendental.

A produção artística e os processos de formação objetivam a emancipação de tutelar a própria interpretação ao ativar a faculdade da auto-intervenção3. A arte que se mantiver cúmplice das afirmações midiáticas de desejo, de controle, de mercado etc, construirá um inferno hermético para a inquietude, para a mobilidade e para a eterna busca do ser humano pela plenitude.



1 SLOTERDIJK, Peter. Mobilização Copernicana e Desarmamento Ptolomaico. São Paulo: Ed. Estudos Universitários, 1998. p. 26 volta ao texto

2 Ibid volta ao texto

3 Ibid, p. 39 volta ao texto



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

SLOTERDIJK, Peter. Mobilização Copernicana e Desarmamento Ptolomaico. São Paulo: Ed. Estudos Universitários, 1998.



Patrícia Valverde (SP) é atriz e performer.

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